Eu sempre gostei de histórias, sempre as criei. Eu era aquela criança que durante as viagens em família ficava olhando para fora e fantasiando um cenário geralmente mais interessante do que o que se passava dentro do carro.

Durante minha infância não era difícil para mim sair do quintal de casa e me encontrar em outro planeta, numa floresta, ou num trem. Para minha sorte geralmente eu tinha a companhia de minha irmã mais nova. Para o azar dela, eu era melodramática e não foram raras as vezes em que minhas histórias a fizeram chorar. Desculpe irmã!

Já na vida adulta, eu fui contadora de histórias algumas vezes. É um prazer indescritível ir em uma escola e conseguir envolver as crianças num conto. Esses momentos são para mim um lembrete do prazer infinito da leitura e da fantasia.

Mas há uma grande distância entre ler livros - para si ou para alguém - ou fantasiar em sua própria mente e escrever, compartilhando com outros algo de muito pessoal.

É claro que durante a minha formação na Faculdade de História eu escrevi bastante. Em muitas outras ocasiões eu pude, ou tive que produzir muita coisa. Mas nada se compara ao processo de criação de Berenice da Capadócia.

Ainda que apenas eu conheça essa história, todo o tempo personagens, escritora e leitor dialogam em minha mente. Não preciso dizer que a parte escritora é a mais fácil! já os personagens são fruto de minha imaginação, portanto eu os conheço bem. Mas, e o leitor?

Aliás, antes de tudo, quem me outorga o título de escritora? Como a prensa de Gutenberg é coisa do passado, hoje escrever e lançar um livro está ao alcance de qualquer um, mas um escrevedor é um escritor?

Pois quem determina isso é o leitor. Porque se for só pelo prazer da escrita, é possível imprimir apenas um exemplar, guardá-lo na gaveta com chave e nunca mostrá-lo a ninguém. Quem publica quer compartilhar, quer ser lido. Mas quem quererá ler?

Estou convencida de que é preciso uma boa dose de ousadia, afinal muito provavelmente ninguém, nem o autor mais bem sucedido, sabe se sua próxima história vai agradar.

Eu sempre digo que há um leitor para cada um livro e a única forma de encontrar esse leitor é publicando. E a única forma de saber se a história é boa é submetendo-a ao julgamento do leitor. Eu não estou falando de críticos literários ou de especialistas. Estou falando do elemento mas importante nessa cadeia, o leitor comum, aquela pessoa que circula nas livrarias, nas bibliotecas e que procura aí algo que o encante, que o satisfaça ou mesmo que o ajude a transpor algum momento difícil de sua vida; e isso é muito sério: muitos de nós foram tão impactados por um livro que mudamos nossa forma de pensar e ver o mundo.

Isso causa um certo temor. Até onde eu posso ir em minha narrativa? Minha História emocionará ou poderá mesmo afetar a vida do leitor? E no mar de títulos disponíveis hoje, Berenice da Capadócia é uma gota.

Para ser honesta com você, eu nem mesmo sei se deveria estar me fazendo tantas perguntas. Mas você há de compreender e ser indulgente comigo: eu sou uma contadora de histórias e minha imaginação me acompanha a cada instante de minha vida; então não é nenhuma surpresa que para publicar meu livro eu crie toda uma história.

Mas são justamente a ousadia e o temor que me impulsionam e me permitem acreditar que a única coisa a fazer é compartilhar minhas histórias com quem quiser ouvir. E se você está lendo essas palavras, então eu encontrei o meu leitor.





Eu ainda não tinha meus filhos, não tinha cabelos brancos e não tinha confiança em mim. Toda a minha energia estava canalizada no curso de História e no meu chéri.

Mas eu me lembro bem do instante em que Berenice me pediu, pela primeira vez, que eu contasse sua história - hoje, quando algum autor afirma que fala com seus personagens, eu acredito plenamente. Naquele momento, eu visualizei uma menina baixinha, invocada, em trajes de pastora, na Roma Antiga, olhando para mim da... Capadócia. Assim mesmo, com todos esses detalhes. Eu passei alguns dias intrigada com aquela imagem, mas acabei deixando pra lá.

Mas eis que Berenice me importuna outra vez. "Venha aqui", ela disse, "vou te falar de um encontro inesperado, que mudou minha vida". E dessa vez eu visualizo a pastora baixinha com um senhor muito idoso, com um olhar muito profundo. Os dois juntos pareciam determinados e eu não tive outra alternativa a não ser escutar sua história.

E ali eu escrevi o primeiro capítulo de Berenice da Capadócia: a jornada do não-herói.

Daí veio o casamento, a formatura, os filhos, mudança de país, volta para o Brasil e tantas outras coisas que nos absorvem em dias que se sucedem até se acumular em anos. Mas todo esse tempo, Berenice estava ali, em segundo plano, envelhecendo junto comigo.

Há dois anos decidimos voltar para a França. Eu deixei o trabalho que eu tinha e me decidi: agora era o momento de escrever, de escutar o que Berenice tinha para me dizer e compartilhar sua história com quem quiser ouví-la.

Foram pelo menos quinze anos de espera, mas hoje eu vejo que eles foram fundamentais para que eu compreendesse melhor onde queria chegar. Eu queria que o leitor pudesse viajar até a Roma Antiga, nessa terra tão surpreendente e enigmática que é a Capadócia.

E queria que nessa viagem, cada um que a fizesse, ao final descobrisse também a sua própria história, porque assim como a grande massa de anônimos que somos eu, você e tantos outros, Berenice também não foi uma heroína. Nada em seu mundo é mágico e ela não recebe um chamado de heroísmo. Mas à sua maneira, fazendo escolhas e enfrentando todas as dificuldades, ela teve uma vida extraordinária. Acredite, você também tem.