Ah! a flecha do tempo! Como ela nos faz pensar na primeira e na segunda Lei da termodinâmica…

“O que? Pensei que esse fosse um blog sobre leituras ou até mesmo sobre a História!”

Pensou certo! Esse blog é sobre literatura. Ele fala de leituras, do meu livro e de História.

E é por isso mesmo que hoje vou falar sobre essas duas leis de termodinâmica. E também sobre entropia.

“Ai, Adriana, aí você já está forçando a amizade! Entropia?”

Está bem, chega de provocação. Eu vou me explicar.


Desde pequenos, nas aulas e nos livros didáticos de História, nos apresentavam a famosa Flecha do Tempo. Aquela linha horizontal mais ou menos longa, com um triângulo em forma de ponta de flecha na extremidade da direita sobre a qual, dependendo do tema, se traçavam pequenas linhas verticais sob as quais se lia “Revolução Francesa-1789”, “Guerras napoleônicas 1803-1815”, “Restauração da monarquia francesa 1815-1830” e por aí vai.

Pois bem, essa flecha do tempo tem relação com os trabalhos do astrofísico inglês Arthur Eddington.

Em 1927, Eddington desenvolveu o conceito de Direção única e Assimetria do tempo e sua proposta resultou em um “Problema em aberto da Física”. Eu tenho autoridade zero para falar de Física, mas como sou do time que acredita que todas as coisas estão interligadas, e que o conhecimento e o saber estão e devem sempre estar à disposição de qualquer um, vou arriscar uma explicação bem tosca e leiga, que vai justificar porque estamos falando sobre essas coisas.


A primeira Lei de termodinâmica fala do princípio da conservação de energia (mecânica, térmica e cinética). Em teoria, se “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, uma força em movimento deveria manter-se sempre em movimento, se não houvesse nada que se interpusesse em sua marcha. Essa ideia levou muitos professores pardais a tentar criar mecanismos de movimento perpétuo: máquinas que, uma vez que sejam providas de uma carga de energia inicial, vão continuar esse ciclo de movimento perpetuamente. Imagine um motor de carro que funcionaria com duas baterias, constantemente passando energia de uma para outra, essa energia fazendo girar o motor. Que sonho seria!

Já a segunda Lei de termodinâmica vêm para jogar um balde de água fria sobre a teoria da energia constante. Foi o francês Sadi Carnot quem demonstrou que um mecanismo provido dessa energia inicial nunca irá executar toda a sua capacidade de movimento. Resultado: aos poucos o mecanismo perde energia. E essa perda gradual é chamada de Entropia.

A entropia nos diz que um sistema fechado tende a iniciar sua existência em ordem, mas essa ordem se perderá ao longo do tempo.

E é aí que entra nossa Flecha do tempo. De acordo com Arthur Eddington, a energia tem uma direção única ou seja, ela não é reversível. Se jogamos uma bola de tênis para cima, ainda que ela retorne às nossas mãos, isso não significa que ela fez uma caminho reverso. A subida e a descida são continuidades da trajetória da bola. E uma vez iniciado, não há como reverter esse processo. Da mesma forma, a energia que lançou a bola para cima foi dispersada a ponto de não ser mais capaz de continuar o movimento da bola. A bola vai cair de volta e em algum momento parar. A energia inicial se alterou, portanto ela é assimétrica.


E isso tem tudo a ver com o tempo: ele segue em frente. Isso significa que não há retorno para nada. Mesmo que você agora esteja pensando na Teoria da relatividade e em buracos de minhoca (túneis de viagem espaço-tempo), mesmo esses movimentos seriam de continuidade (se você voltasse no tempo, estaria consciente desse retorno, então não se pode dizer que você voltou, mas sim, visitou o passado. E se você voltar no tempo, aos seus seis anos de idade, sem ter consciência disso, isso não seria voltar, mas retomar um ponto da trajetória, anulando todo o resto).


Aceite isso: o tempo não pára e não volta.

Uma ação iniciada vai seguir sua trajetória, durante a qual perderá energia até se dispersar e deixar de existir. Isso vale para tanto para as flores do seu jardim quanto para o Universo. Se a duração dessa trajetória será longa ou curta, são os fatores de interferência que determinarão isso, mas as variáveis são tantas que nem vale a pena tentar prevê-las. Nós não controlamos a trajetória do tempo. Nós somos a trajetória.


Isso faz pensar sobre muitas coisas, e uma delas é o tema inicial desta nossa conversa de hoje: afinal, a vida é uma sequência de rupturas ou é uma continuidade?

Muitas pessoas, quando pensam em suas próprias vidas as vêem como blocos, como trechos de eventos marcantes. Elas a vêem como partes que formam um conjunto. Em suas narrativas, as experiências são compartimentadas: “quando eu era criança eu era assim, na adolescência era assado” ou “quando eu era jovem”. Muitas das vezes transparece uma nostalgia, um saudosismo desse “eu” do passado através de frases como “bons tempos”, “saudades desse tempo”.

Os eventos caem como pesados blocos uns sobre os outros: o tempo de escola é achatado pela faculdade, bum! A juventude fica para trás, como se se tratasse de outra pessoa quando chegam os 40, 50 anos, bum! Os filhos que eram pequenininhos e conduzidos sob asas protetoras e controladoras, chegam à vida adulta e bum! você se tornou obsoleto, como se não fosse mais aquele pai e aquela mãe que saíram da maternidade encantados com a jóia que tinham nas mãos.

E por aí vai. Olhamos para fotos antigas e dizemos “caramba, eu era bonito, eu era bonita”. Tudo descompartimentado, tudo frouxo, dando a impressão de falta de controle, como se os eventos fossem tão aleatórios que nós não temos participação neles e sim, somos suas vítimas. Isso acaba sendo assustador, dá a impressão de instabilidade. “Hoje eu sou essa pessoa, quem serei eu daqui a 10 anos?”


Mas a Flecha do tempo, se serve para criarmos mecanismos utilitários (automóveis, máquinas, aparelhos eletrônicos e espaçonaves), serve também para nos dar um outro olhar sobre nossa própria existência.

Não, não somos feitos de blocos de eventos, cada qual correspondente a um “eu” específico (eu criança, eu adolescente, eu jovem, eu adulto, eu velho, eu não mais). Nossa existência em si é uma força, uma energia. Se criada por uma força maior ou não, com propósito ou não nem vem ao caso. Existimos, isso é fato. Somos impulsionados na direção do futuro, pois o tempo não volta, isso é fato. Os eventos de nossa existência estão sujeitos à entropia: inicialmente ordenados, para terminarmos desordenados, isso é fato.

Quando nascemos, nossas ações eram limitadas, nossa energia ordenada (um bebê que não se locomove, não fala e interage de maneira limitada com seu entorno não gera muitos eventos). É quando crescemos e nos tornamos autônomos que criamos os acontecimentos de nossas vidas. Assim, a direção única de nossa energia/existência (não podemos voltar no tempo), e a assimetria dessa energia/existência (nem um dia é igual ao outro), nos encaminham até o presente. Não há rupturas. Você ainda é a mesma pessoa de seus cinco anos de idade. Você ainda é aquela criança que entrou no primeiro dia de escola assustada ou animada.

Você ainda é o adolescente, a adolescente que tinha certeza de que nunca ficaria igual a seus pais. Sua vida é uma flecha em direção ao futuro. E nela você vai colocando tracinhos de eventos marcantes, que culminarão no momento atual. Mas esses tracinhos só servem para te ajudar a compreender o todo. Eles não rompem o traçado.

Sua vida é feita de continuidade, marcada por altos e baixos, mas sempre sobre a mesma trajetória, não de cacos espalhados sem conexão.

Quando você finalmente perceber a beleza dessa energia que te move talvez pare de sentir saudades do passado e passe a incorporá-lo ao conjunto de sua vida. Então para você não haverão mais altos e baixos, tempos felizes que ficaram para trás. Todo o repertório de eventos de sua vida serão aceitos porque você saberá que eles são a energia que te move, que faz com que você seja você.

Portanto, não se desconecte de si mesmo. Se você não pode - e não deve - voltar no tempo, você pode abraçá-lo, pois abraçar o tempo é abraçar a própria existência!

E o mais bonito disso tudo é que todas as flechas do tempo, todas as existências estão interligadas. Você não está sozinho e nem precisa sentir-se sozinho. Aproveite cada tracinho dessa existência e interaja, conecte-se com sua vida e com as coisas e pessoas que cruzam o seu caminho. E se o final é inevitável, que seja! Afinal o que conta é que você existe agora, que velho ou moço, velha ou moça, você é energia! Conecte-se consigo e com o mundo e viva cada desordem como parte imprescindível, ainda que incompreendida, da sua flecha do tempo. Sem rupturas, mas de continuidade que segue seu próprio ritmo.


Comecemos pelo começo.

Há alguns dias, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, defendeu o retorno da tributação sobre livros no Brasil. A proposta movimentou as redes sociais e as páginas de jornais. De tudo o que vi a respeito, aparentemente a maioria das pessoas que se manifestaram são contra a taxação. Normal: livro no Brasil é caro. Uma pesquisa rápida no site de uma grande rede de livrarias mostra uma média de 30 reais por um livro novo.


Eu queria ter uma ideia desse custo para o bolso do brasileiro em relação à outros países. Como não gosto muito da ideia de comparar em dólares americanos, que para mim é uma referência vaga, eu vou fazer uma comparação com o salário mínimo local.

Vamos lá:

  • para um brasileiro, um livro custa em média 30 reais e o salário mínimo é de R$1045 (2,9%).

  • para um francês, um livro custa em média 12 euros e o salário mínimo é de € 1525 (0,8%)

  • para um argentino, um livro custa em média 400 pesos argentinos e o salário mínimo é de ARS$16875 (2,4%)

  • para um indiano, um livro custa em média 150 rúpias e o salário mínimo é de ₹9750 (1,5%)

  • para um norte-americano (estadunidense), um livro custa em média US$17 e o salário mínimo é de US$1256 (1,4%).

Essa montoeira de dados nos diz que o salário mínimo do brasileiro equivale à 34 livros. O francês, 127 livros. Argentina 42, ìndia 65 e EUA 73 livros.

Pois é, livro no Brasil é caro. Mas o que mais me impressiona nessa história de tornar o livro ainda mais caro é a ideia, o conceito que está por trás da precificação e popularização do livro. E uma frase do ministro, para mim, diz tudo:

“Agora, eu acredito que eles, num primeiro momento, quando fizeram o auxílio emergencial, estavam mais preocupados em sobreviver do que em frequentar as livrarias que nós frequentamos” .

(Paulo Guedes, atual Ministro da Economia)


O ministro está se referindo às prioridades da população de baixa renda em relação ao plano de auxílio emergencial lançado há pouco. Ninguém com um mínimo de noção vai dizer que quando falta alimento para o corpo, a alma procura alívio nas letras. Não! Quando nos falta alimento, saúde, moradia, queremos e precisamos de dinheiro para sanar esses problemas. O livro poucas chances de entrar na ordem do dia.

Não, o que me marcou não foi a constatação das prioridades da população de baixa renda. O que me marcou foi o “eles e nós”.


Eu me explico: o bicho-homem é um só. No Brasil, na França, na Índia, no Sudão, em Petropavlovsk-Kamchatsky, todos buscamos a mesma coisa, quando se trata da existência do corpo: viver bem. Barriguinha cheia, saúde em dia, uma fonte de renda digna, um abrigo, nem frio, nem calor demais, ponto.


Nem Jeff Bezos nem João da Silva querem sobreviver. Todos queremos viver. Não existe isso de “eles e nós”! O que existe é uma diferença de acesso às benesses mencionadas acima. Aos que não tem o mínimo, não é dada nem a escolha de ignorar o livro. Menos ainda a oportunidade de “frequentar as livrarias que nós frequentamos”.

A fala do ministro denuncia uma distanciação, uma categorização de uma parte da sociedade. Os pobres não lêem. Os pobres tem outras preocupações. Os pobres não são como o ministro. Então eles não entram na pauta da cultura. A opinião do pobre não importa.


Não vou colocar mais dados aqui porque senão daqui a pouco você vai desistir de ler esse texto, mas em termos de economia mundial, um índice importantíssimo para se determinar a riqueza de um país é a educação.

A Índia que o diga: nesta última década o percentual de iletrismo vem caindo, enquanto o acesso a um longo período de educação vai aumentando. E esse não é o único exemplo de país que cresce em educação e economia. Finlândia e Japão tem muito a nos dizer sobre o assunto.



Pensando nisso tudo, fiquei curiosa em saber quais são os benefícios reais, concretos, mensuráveis da leitura, e achei uma pesquisa científica da Carnegie Mellon, em Pittsburgh (EUA). O estudo, um programa de seis meses de seguimento diário de leitura para crianças que lêem pouco, chegou a um resultado interessante: a massa branca do cérebro das crianças que foram estimuladas e ensinadas a ler todos os dias, durante seis meses, aumentou, em relação ao grupo de controle. A consequência disso? Essas crianças aprenderam a se comunicar melhor, a escrever melhor. Falando de forma bem tosca: essas crianças melhoraram seus cérebros! E ninguém falou em que tipo de leitura, apenas em ler.


Eu não posso me furtar de imaginar a diferença que o acesso e o estímulo à leitura poderiam fazer na sociedade brasileira. Imagina as pessoas mais preparadas para o trabalho, mais aptas para compreender textos, mais capazes de desenvolver o pensamento abstrato? Sim, porque ler nos ajuda a ter experiências. Outros estudos mostram que o cérebro interpreta uma história lida de forma concreta, como se o leitor estivesse realmente vivendo a experiência.

I

magina esses benefícios estendidos à todas as classes sociais?

Eu não sei se taxar os livros vai ajudar na economia do país. Mas não é preciso ser especialista para concluir que se o preço do livro subir, ele vai ser um bem de acesso ainda mais difícil. E fazer crescer os índices de educação sem livros é meio complicado.

O que soa engraçado, quando a gente pensa que um Ministro da Economia deveria ser o primeiro a ter esse raciocínio.


E se a educação de um país não melhora, como é possível fazer crescer a economia, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de um país?

Veja que uma proposta tão “inocente” esconde nefastas consequências. Não pelo imposto em si, mas pela simbologia do objeto: o livro.

O livro é um dos primeiros itens a ser proibido nos regimes totalitários, e não por acaso. E para justificar essa proibição, uma das primeiras ações desses governos é vilipendiar o livro. Alguns o satanizam, outros o tornam objeto de desprezo do povo, ao dizer que só a elite pode ler.


Conclusão: o que está em jogo é muito mais do que o preço do livro. A questão que deve ser colocada é “Porquê o livro no Brasil é um produto de elite”.

A gente continua essa conversa no próximo blog.


Alguns dados sobre livros, no Brasil e no mundo. Mas antes, deixa eu explicar: nos sites oficiais do governo, há informações de que o brasileiro lê 4,4 livros em média. Mas conseguir verificar esses dados é difícil. Então eu usei o melhor que pude os dados sobre vendas de livros, excluindo os livros didáticos e total da população. Então, se o brasileiro não lê 1, de qualquer forma só lê no máximo 4 livros por ano, quando se trata de aquisição própria, não de empréstimos em biblioteca.


Brasil 2019 :

Livros não didáticos (vendidos): 209 milhões

População 2019: 210 milhões

Livro per capita/ano: 0,99 livro por pessoa

França 2018:

Livros não didáticos (vendidos): 369 milhões

População 2018: 67 milhões

Livro per capita/ano: 5,5 livro por pessoa

Taxas sobre o livro: SIM

Argentina 2018:

Livros não didáticos(produzidos): 43 milhões

População 2018: 44 milhões

Livro per capita/ano: 0,97 livro por pessoa

Taxas sobre o livro: NÃO

India 2019:

Livros não didáticos(produzidos/vendidos): dados não disponíveis

População 2019: 1,3 bilhão

Livro per capita/ano: 109 livro por pessoa (segundo pesquisas, um indiano lê 2,1 livros por semana)

Taxas sobre o livro: NÃO

Estados Unidos da América 2017:

Livros de todos os gêneros (vendidos): 2,7 bilhões

População 2017: 325 milhões

Livro per capita/ano: 8,3 livro por pessoa

Taxas sobre o livro: SIM


Sobre o que é a Matéria branca, no cérebro humano:

“Considerado por muito tempo como tecido passivo, a matéria branca afeta a aprendizagem e as funções do cérebro, modulando a distribuição dos potenciais de ação, atuando como transmissor e coordenando a comunicação entre diferentes regiões do cérebro”.



Fontes:

  1. https://snel.org.br/wp/wp-content/uploads/2020/06/Produ%C3%A7%C3%A3o_e_Vendas_2019_imprensa_.pdf

  2. https://www.culture.gouv.fr/Sites-thematiques/Livre-et-lecture/Actualites/Chiffres-cles-du-secteur-du-livre-2017-20182

  3. https://www.batimes.com.ar/news/culture/argentinas-beloved-book-industry-hopes-to-weather-crisis.phtml

  4. https://www.thehindu.com/books/authors-are-vying-with-pokmon-and-taylor-swift-meghna-pant/article26606836.ece

  5. https://publishingperspectives.com/2018/07/us-statshot-publisher-survey-2017-estimates-revenue/

  6. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-08/guedes-sugere-doacao-de-livros-pobres-em-vez-de-isencao-editoras

  7. https://journals.lww.com/neurotodayonline/fulltext/2010/01210/White_Matter_Brain_Changes_Result_from_Reading.9.aspx

  8. Douglas Fields, R. (2008). "White Matter Matters". Scientific American. 298 (3): 54–61. Bibcode:2008SciAm.298c..54D. doi:10.1038/scientificamerican0308-54.




Arena de Nimes, França

Eu tenho a sorte de estar passando as férias desse ano no sul da França, na região da Occitânia, numa casa de campo rodeada pelo som de cigarras. O calor é intenso. Como boa “curitibana”, a cada vez que o termômetro passa dos 30ºC eu começo a me arrastar pelos cantos, como uma criatura polar sofrendo com a mudança climática. Se eu ganhasse um Euro a cada vez que alguém comenta “mas você não é brasileira? devia estar acostumada com o calor!” eu já teria um saldo bem razoável. Para quem não conhece o clima de Curitiba, os dados do INMET dizem que a temperatura máxima registrada até 2010 foi de 32ºC, então imagine como eu me sinto com os 50ºC sob o sol ontem!


Mas, voltemos à vaca fria (quem dera), para falar dessa viagem.


Há muitas coisas que podem descrever a minha alegria em estar aqui. Eu não vou mencionar o fato de estar com minha família e com grandes amigos, porque esse não é um blog sobre minha vida pessoal. E eu nem saberia descrever como é bom estar com essas pessoas que amo tanto; passemos então às alegrias da historiadora e escritora.

Estou em Saint-Mamert du Gard, uma cidadezinha de 1634 habitantes(censo de 2017), cuja idade eu não encontrei, mas que tem uma igreja do século XII. Mas também não vim falar de Saint-Mamert du Gard e de seus 1634 habitantes . Quero falar de Nîmes e das reflexões que ela tem me inspirado.


Sob o governo do Imperador Augusto, no ano 27 de nossa era, a cidade é definitivamente incorporada ao Império Romano, sob o nome de Nemausus. Sessenta anos depois, ali se construiu uma arena, ou um anfiteatro, onde gladiadores combateram entre si e contra animais, num espetáculo que tem o nome bem apropriado de panem et circensis. Quem acompanha as práticas políticas vigentes até hoje em qualquer país, democrático ou ditatorial, não vai ficar surpreso em saber como essas coisas pouco mudaram desde que o primeiro Homo decidiu andar definitivamente sobre duas patas, feito que por si só lhe valeu a alcunha de sapiens.


E é justamente esse paralelismo, ou melhor, essa continuação do ser que me fascina e que se comprova, diante dos meus olhos, a cada ocasião como essa, de poder visitar um lugar habitado há tanto tempo e que ainda conserva tantos vestígios do passado.


A Arena de Nîmes, em tempos normais, serve de palco para inúmeros espetáculos, concertos e apresentações, especialmente no verão. Nesse ano de 2020, todos os eventos tiveram que ser cancelados. A razão? Eu sei que nem preciso dizer porque na sua cabeça você já respondeu COVID, em um átimo de segundo. Esse cancelamento é ruim. Muitas pessoas contavam com o trabalho estival e as consequências emocionais, sociais e econômicas do COVID ainda vão se fazer sentir por muito tempo.


Mas eu sou humana e tenho lá minha não muito pequena parte de egoísmo, então me permito ver o lado bom disso: eu pude caminhar pelo anfiteatro, das arquibancadas até a arena propriamente dita, o palco dos espetáculos romanos. E o que aprendi durante a visita guiada (muito bem organizada, por sinal), foi a confirmação de uma tecla que quem me conhece de perto sabe que venho martelando há tempos: não há o homem do passado e nós do presente.


Na foto desse post você pode ver pela arquitetura do anfiteatro, como os lugares eram distribuídos. Se você fizer uma rápida pesquisa no Google sobre os mais conhecidos estádios de futebol do mundo, vai ver na forma oval, nos arcos de entrada e nas escadas da plateia uma similaridade que não tem nada de coincidência.

E depois que eu te disser aqui como era um dia de espetáculos, talvez você veja ainda mais semelhanças e chegue à mesma conclusão que eu: ainda somos as mesmas pessoas, as mesmas criaturas sócio-político-emocionais de sempre. Ou pelo menos de dois mil anos atrás. Pronto para uma viagem no tempo? Então vamos lá:

Mas espere um pouco. Antes de começarmos, você deve escolher um papel. Porque desde que o homem é homem, somos todos iguais, mas como canta Humberto Gessinger, “todos iguais, mas uns mais iguais que os outros”. Entre o público que frequentava os espetáculos, temos:

  • Escravos e libertos (alguém que foi liberto da escravidão pelo seu senhor):

  • que são do sexo feminino;

  • que servem os pobres;

  • que servem os comerciantes;

  • que servem os ricos proprietários e comerciantes;

  • que servem os patrícios;

  • que tem cargos públicos (notários, contadores, tesoureiros, administradores, médicos, arquitetos)

  • que servem ao Imperador diretamente

Pessoas livres:

  • mas sexo feminino;

  • mas impúberes (crianças);

  • mas miseráveis (desempregados e desabrigados)

  • mas pobres (sem nome de família importante, trabalhadores rurais, operários de construção civil);

  • mas com uma renda suficiente para uma vida quase digna (pequenos comerciantes e artesãos);

  • mas ricos: comerciantes e proprietários de terra, que possuem escravos em número suficiente para lhes permitir uma vida longe do esforço braçal;

Cidadãos:

  • mas do sexo feminino;

  • mas patrícios: homens pertencentes à elite política, generais e comandantes militares, oriundos de uma família tradicional romana mesmo, ou de antigas tribos que se aliaram à Roma — como no caso de Nemausus ;

Como é possível distinguir uns dos outros, durante as festividades, já que o anfiteatro de Nîmes podia conter em seu interior o impressionante número de vinte e cinco mil espectadores? Muito simples: veja como cada um está vestido.


Mas antes, deixe-me dar a você um conselho: esqueça tudo o que viu nas séries, jogos ou filmes. Nessa época, assim como até pouco tempo, roupas eram artefatos caríssimos, que exigiam talento e tempo, e tecidos coloridos ou sofisticados eram importados de várias regiões do Império e isso exigia muito dinheiro. Assim, tenha em mente que durante os três dias de espetáculos e festividades, sendo um patrício ou um cidadão você terá direito de usar a sua provavelmente única toga e seu único manto. Se seu personagem nessa viagem for uma cidadã, você usará uma stola, um vestido no estilo da toga, que nada mais é do que um amplo tecido quadrado ou retangular que sua serva prendeu nos ombros por uma fíbula — um alfinete. Por cima da stola, porque você é uma mulher honrada e honesta, que preza pela sua modéstia, você vai colocar a palla, uma bonita capa ornamentada segundo o que a bolsa de seu marido ou pai permitir. E tenha certeza de que o pater familias que dirige sua vida lhe propiciará a melhor roupa possível. Porque os eventos sociais em Roma são a ocasião de ver e ser visto. E quem sabe fazer bons contatos entre um combate e outro, talvez mesmo consiga arranjar um bom casamento para sua filha, que acabou de fazer doze anos. E azar seu se está calor. Em nome do seu status social você vai vestir sua pesada roupa o dia inteiro, com orgulho e sem queixa. Mas não se preocupe, durante as apresentações, escravos passarão pelas arquibancadas aspergindo perfumes de lavanda e outras plantas, para disfarçar o cheiro de suor e outras secreções biológicas.


Se você for um liberto ou um escravo, você vai usar o que seu dinheiro permite comprar, mas de maneira alguma lhe será permitido vestir-se como um cidadão. Porque se hoje podemos nos brincar de parecer ricos de mentirinha com roupas e acessórios falsificados, em Roma isso não seria aceito. Cada um se veste de acordo com seu status. Então, nada de toga para você. Mas escravo ou liberto, é possível até que você seja mais rico do que o senhor a quem você serve, então escolha um tecido bonito para sua apresentação, tendo o cuidado de não se parecer com alguém que você não é. Porque se você for desmascarado, vai ser expulso da arquibancada a socos e pontapés!


Agora que já sabemos quem é quem, vamos distribuir o público pelas arquibancadas. Quem pode mais, chora menos, não é o que se diz? Nada disso: você vai sentar-se entre os seus, independente de quantos sestércios você tem na sua bolsa, porque os espetáculos nas arenas eram públicos e absolutamente gratuitos. Eu sei, é um pouco difícil de aceitar, visto que nos dias atuais não são as origens, mas o dinheiro quem dita as regras (mas seja o dinheiro, seja um sobrenome pomposo, não são os dois uma forma de distinguir os privilegiados dos desfavorecidos?). De qualquer forma, o "berço" continua distinguindo até os afortunados: se nos dias atuais você for um novo rico que foi convidado para uma festa entre famílias tradicionais, talvez você saiba do que eu estou falando.


Pelas 60 arcadas de entrada do anfiteatro, cada um encontrava seu caminho até seu devido lugar. Você escolheu ser um patrício: não se preocupe em ter que subir os quatro andares até lá no alto. Você tem um espaço reservado de frente para a arena, já nas primeiras fileiras. Um pouco acima de você está o governador da província, seus amigos próximos e para sua sorte, nesse dia, você vai estar a alguns passos do Imperador em pessoa.


Você é um homem livre, um cidadão, então pode se instalar ao longo do primeiro e segundo piso. Pode até se colar em volta da área VIP para dar um aceno ao seu senhor, que provavelmente vai fingir que não lhe viu.


Nos dois últimos andares, se espremem o resto de nós: escravos ricos e pobres, homens livres mas miseráveis, estrangeiros, crianças e mulheres. Sim, minha cara (caso você tenha escolhido ser uma mulher). Seja você uma escrava paupérrima, de um senhor paupérrimo, ou a esposa do governador, você vai se sentar entre a ralé. Porque na escala social romana, uma mulher é um ser infantil, desprovido de maturidade, assim como as crianças ou os escravos, ainda que entre esses últimos esteja alguém que antes de ser capturado tenha sido um grande senhor entre os seus. Mas você está feliz, porque até pouco tempo, você era mesmo proibida de entrar no anfiteatro.


De qualquer forma, nada disso importa, porque o espetáculo vai começar.

Ainda que a arena esteja quase completamente lotada, foram necessários apenas dez minutos para que todos entrassem, porque essa fantástica arquitetura permite que se entre e se saia com a maior fluidez, sem tumulto (ninguém aqui está dizendo que não haviam acidentes, mas o que importava era o espetáculo, azar do infeliz que caiu lá de cima).


Todos “em seus lugares”, escravos estendiam por sobre a arquibancada o velum, uma cobertura fixada por mastros, que circundava toda a arquibancada, protegendo os espectadores do sol e da chuva (isso lhe parece familiar?). Cada anfiteatro oferecia espetáculos de acordo com a importância da região. O Anfiteatro Flavianum, de Roma, era grande o suficiente para que os combates se fizessem com elefantes, girafas, leões e tigres.

O nosso anfiteatro de Nemausus não é dos mais pobres, pois a região é rica, mas ainda sim a arena é circulada por um muro de pouco mais de dois metros. Melhor deixar leões e tigres de lado. Mas haverão lobos, javalis, cervos, cães.Também vai ter música e um pouco de teatro nesses três dias.


Mas o que você quer mesmo ver é um combate entre gladiadores. Você quer ver homens desafortunados, que foram arbitrariamente escravizados e que agora são obrigados a se debater até a morte. Você quer ver o polegar do Imperador apontar na horizontal, em sinal de clemência, ou para baixo, como se ele fosse uma Rainha de copas dizendo “cortem as cabeças”. Sinto muito, mas eu vou te desapontar de novo. O tempo dos combates até a morte já passou, e nem durou muito. Agora os gladiadores são profissionais de luta. No lugar de Russell Crowe, ponha aqui um Anderson Silva. Mas se você não verá um combate até a morte, vai poder contemplar muito sangue, muita violência e poderá mesmo fazer apostas no seu combatente preferido, caso nesse período o jogos de azar sejam permitidos. Caso contrário, você vai apostar na surdina, entre entendidos, como no jogo do bicho. E se a ideia desse espetáculo de sangue desagrada você, não se preocupe, o nome arena vem da areia que era espalhada sobre o solo de combate, para absorver o sangue.


Mas ficar sentado sob a cobertura, empolgado com tanta euforia, dá fome. Mas não se preocupe. Uma versão romana do “vai uma pipoquinha, vai uma cervejinha, um cachorro-quente” passará nos intervalos. E o melhor de tudo, é de graça! E quando tudo estiver meio morno e você e seus camaradas de arquibancadas estiverem meio silenciosos e cansados, no lugar de pipoca e cerveja (o que eu quero dizer é carnes assadas, pão e vinho), vão ser atiradas moedas. Sim caríssima/o viajante do tempo, não só os espetáculos serão gratuitos, não só você vai poder comer e beber até arrebentar, mas você ainda vai ser pago para isso, como nota de agradecimento. Três dias de festividades sem gastar nem um centavo. À noite você pode dormir em casa de amigos, ou nas tavernas, caso tenha vindo de longe.


Aposto que agora você está dizendo “puxa, como esses romanos são bacanas, generosos, sabiam se divertir!”. Calma aí, que depois de tudo isso, agora é que vem o momento de trazer você de volta ao tempo atual. Toda essa generosidade tem uma razão e um preço. O Imperador providenciou o plano urbano da cidade de Nemausus, que foi executado às expensas dos senhores locais, porque queria assegurar a romanização dos volcos aretomicos, povo gaulês que combateu junto a Júlio César contra o também gaulês Vercingetorix há não muitos anos.

Já os espetáculos foram oferecidos pelo senhor de Nemausus, que ambiciona fazer crescer em importância o nome de sua família e, quem sabe, ter um de seus descendentes no senado e, porque não, no trono imperial (estratégia que renderá o fruto esperado em 138, com Antonino Pio). E quem oferece pão e circo, em troca recebe votos, apoiadores e força política.


Eis aqui, como a dinâmica entre ricos e pobres, mas especialmente o lugar que cada um ocupa na sociedade determina o destino de um povo através da política. Que sejam os espetáculos do passado, ou os comícios de hoje, as formas como somos governados às vezes depende menos da aptidão dos governantes do que da margem de manobra deles.


E se a dinâmica política não bastou para convencer você de que continuamos os mesmos, num próximo texto a gente pode conversar sobre algo mais simples, como a vida privada.

Espero que você tenha gostado do espetáculo.


**Se você não tiver a oportunidade de visitar a Arena de NÎmes e seguir a excelente visita guiada oferecida pela organização da Arena, você pode aprender um pouco mais sobre as batalhas na Gália e a derrota de Vercingetorix pelo próprio Júlio César, já que ele nos deixou suas experiências no livro: CÉSAR, Julio. A Guerra Gálica. O livro foi escrito entre 57-51 da Era Comum. Atualmente, há algumas edições comentadas traduzidas para os idiomas modernos.