Não, Berenice não é uma vampira com a qual você corre o risco de cruzar desprevenidamente, numa noite escura, embriagado, depois de sair involuntariamente de seu bar favorito porque são quatro da manhã e ele fechou. Isso estaria mais para uma história do Stephen King dos anos 80. Minhas personagens são pessoas que viveram no início da Antiguidade Tardia, apenas uns séculos antes do início da Idade Média. Elas viveram há mil e setecentos anos.


Mas como dar vida a pessoas tão antigas?

Quando se fala em Império Romano, provavelmente a imagem que vem à mente de muitos de nós é a de senadores velhinhos, vestidos de togas brancas, confabulando secretamente nos corredores da Curia Iulia contra Júlio César ou outro Imperador da vez. Fora do prédio, uma massa de miseráveis protesta a plenos pulmões, até que o Imperador lança pedaços de pão e anuncia que haverá um espetáculo no Amphitheatrum Flavium (aka Coliseum), fazendo com que a multidão se acalme num passe de mágica.


Talvez até os imaginemos falando inglês ou, se houver um esforço de acurácia, todos “falandum cum palavrus quid terminum cum ‘um’”.

O problema desse imaginário é que ele permite trocar de cenário várias vezes. A Curia Iulia se transforma no Palácio St. James de Henrique VIII, ou no Palácio de Versalhes de Luís XVI, mas também na Casa Branca ou Palácio do Planalto contemporâneos. Tudo muito igual, e nossa identificação acaba se diluindo na mensagem de que “a história se repete”.


Durante o processo de escrita de Berenice da Capadócia, eu realmente desejava dar vida aos personagens, eliminando qualquer aspecto caricato com o qual estejamos acostumados a pensar “as pessoas do passado”.


Um ensinamento importante que eu tive durante a Faculdade de História é que o homem da Idade Média não se identificava assim. Ninguém nesse longo período pensava “Oh, eu vivo na Idade das Trevas, como é difícil!” . E nem vou tratar aqui no mérito da questão Idade Média = obscurantismo. Esse não é um blog sobre História. Dito assim pode parecer óbvio, mas na cultura geral os povos do passado são como um espectro, uma imagem opaca de vidas que se foram há muito. E, portanto, não há nada mais errôneo que isso!


Quem tem interesse nas Ciências Humanas — História, Filosofia, Sociologia, Antropologia, etc. — está acostumado a pensar no ser humano como um todo. Uma espécie que se construiu no tempo, que continua esse processo nos dias de hoje e enquanto existir. Assim, enquanto espécie única, ainda que hajam distinções espaço-temporais entre indivíduos (quando e onde cada um existe e existiu), nosso modus operandi contínua o mesmo. Isso significa que desde sua origem, o Homo sapiens ama, odeia, se alegra ou se entristece basicamente pelo mesmo motivo: os desafios advindos de sua natureza social, gregária.


Eu costumo dizer que, por baixo do verniz cultural, todos nós ficamos inquietos da mesma forma quando nossos entes queridos adoecem, ou cheios de esperança quando nos sabemos amados por quem amamos. O que muda é apenas a forma como manifestamos esses sentimentos.


Assim, quando pensei em todos os eventos que acontecem na vida de Berenice, e na forma como ela reage a eles, eu os descrevi do ponto de vista de uma jovem contemporânea.

Berenice não sabe que o mundo que ela conhece está se dissolvendo. Ela também não imagina que estamos acompanhando sua história, mil e setecentos anos depois de ela ter vivido, pela tela de nossos aparelhos eletrônicos. Nem mesmo através uma das coisas que ela mais ama, que é a história escrita então?! Para ela, o mundo em que vive é o que há de mais moderno e com certeza, sendo uma adolescente, ela se empolga com as novidades de seu mundo e torce o nariz para o modo de vida primitivo de seus antepassados.


Essa perspectiva fortalece os laços entre mim e a pastora da Capadócia. Eu desejei contar sua história não porque acho que a Antiguidade Tardia é romântica – quando ouço alguém dizendo que gostaria de ter vivido em tal ou tal época, sempre pergunto “tem certeza?” – mas porque para mim representa o retrato de humanidade, uma prova de nossa unidade, nossa similaridade enquanto membros do mesmíssimo grupo.


No fundo, a minha esperança é que através da narrativa de Berenice da Capadócia eu possa, de forma modesta, mas sincera, contribuir para que consigamos entender que entre nós, humanos, não há o que nos separe, pois nós somos feitos da mesma essência.

Quem sabe?..



Já faz 51 dias que estamos confinados. Um tempo indecifrável, em que dias bons se sucedem a dias mais tensos e o humor fica ainda mais flutuante. Quando, como a Alice do livro, eu me dou bons conselhos e digo a mim mesma “viva um dia de cada vez” ou “isso vai passar” além do mantra “paciência” repetido vezes fim, eu até que consigo respirar fundo e esperar que cada dia aconteça como deve acontecer. Até porque eu tenho consciência de que minha situação está longe de ser das mais difíceis: eu tenho um teto sobre minha cabeça, os filhos sob o mesmo teto, um companheiro amoroso e uma mesa que não conhece a penúria (sem contar os dois gatos, que vira e mexe me confortam pela sua tranquilidade inabalável).

Mas há um fator que está pesando mais a cada dia, e quando eu procuro uma imagem para descrevê-lo, só o que me vem são “asas amarradas”. São 51 dias vendo a mesma paisagem e se há pouco foi possível ouvir novamente a sinfonia dos pássaros de primavera, acompanhar o despontar das folhas das árvores depois do longo inverno, de ver os botões de flores se abrirem e de sofrer com o pólen (ah, rinite, tu não me abandonas nem no confinamento!), nesses últimos dias não há mais muita novidade. As folhas já se tornaram conhecidas, o canto dos pássaros vai se acalmando e as flores começam a fenecer.

Eu moro num condomínio pequeno, mas que tem um espaço verde bem grande até - onde estão os pássaros, as árvores e as flores dos quais acabei de falar - e posso circular por ele livremente (sempre respeitando os famigerados gestos de proteção), mas já há uns bons dias isso não tem me bastado. Eu quero mais, eu tenho fome de mais! Tenho vontade de pegar meus pés e sair caminhando até que eles se cansem, na direção que eu decidir. Eu brinco que estou vivendo numa prisão sueca e descer para caminhar é o mesmo que banho de sol.

Veja, eu sei que estou reclamando injustamente. Eu nunca estive numa prisão. O mais próximo que cheguei de estar presa foi a uma cama de hospital (e isso marca a gente), mas eu repito: eu sei que tenho uma vida relativamente privilegiada. Claro que estou a anos-luz de fazer parte de alguma casta economicamente privilegiada. Minha probabilidade de possuir um patrimônio de mais seis dígitos é de 1/50.063.860, mas isso aumenta para 1/∞, já que eu não jogo na mega-sena, mas não deixo de pensar em quem tem menos do que eu, em quem vive em países sob ditaduras ou onde a pobreza é extrema. Não, eu sei que não tenho motivos para grandes queixas (o que não me impede de ter um olhar crítico sobre as políticas públicas, comportamento, sociedade, mas esse não é o tópico desse texto).

O que me acontece é um problema genético. Em minha família temos o gene do nomadismo. Desde pequena nos mudávamos com certa frequência de casa ou de cidade e na vida adulta eu continuei essa itinerância. Até o momento eu conto, desde meu nascimento, 21 mudanças e dentre elas, 7 cidades e 2 países diferentes.

Em casa de meus pais, quando não podíamos mudar de casa, mudávamos a disposição dos móveis e a casa nunca era igual de um ano para outro.

Tantas idas e vindas obviamente não trouxeram apenas alegrias. Era difícil mudar de escola e deixar todas as amizades para trás para tentar me reinserir em grupos que existiam antes de eu chegar.

Mas o gosto pelo novo, pela descoberta, por novas paisagens e novos rostos ficou em mim, implantado e absorvido como parte do meu ser.

Eu faço parte do grupo que, quando pensa o que faria se tivesse muito dinheiro, responde sem hesitar: viajaria!

Nos fins de semana não é raro que aqui em casa nos juntemos todos dentro do carro para fazer um passeio nas cidades vizinhas. E farofar na praia então? Essa está no top list! A cada novo lugar eu me encanto com a diversidade da cultura, das pessoas, da natureza e da história. E essas imagens vão se acumulando no meu repertório mental, me ajudando, nos momentos difíceis, a manter a esperança e a serenidade até que a tormenta passe.

Por todos os lugares por onde andei - e cada centavo economizado me permitiu ir para lugares bem longe, desde Portugal até o Japão - o que constatei, todas as vezes foi o mesmo: por baixo do verniz de nossas culturas específicas nós humanos, somos todos iguais. E entender isso me faz amar a vida e as pessoas ainda mais (confesso que algumas pessoas amo de longe, outras é verdade, não dá não, mas essas são bem poucas). Daí eu volto para os 51 dias. Há quase dois meses que não vejo “ao vivo e a cores” meus amigos, o restante da família que mora perto, outras paisagens, outras pessoas… e isso é o que está mais pesado.

Certo, todos concordamos em certo grau que o distanciamento social é o remédio amargo que vai ajudar o mundo a evitar uma catástrofe humanitária. Eu, que tenho convicções que me permitem encarar a morte com resignação, um processo natural, quando penso que podemos evitar mortes se à disposição da pessoa houver um leito de hospital e um respirador que lhe dê assistência até que seu organismo retome o controle, chego a uma conclusão óbvia: claro que posso abrir mão de meu conforto e claro que posso calar minha natureza inquieta para contribuir modestamente com o bem comum.

Só que… não está fácil. Talvez porque todo esse esforço para manter a vida esteja justamente nos afastando dela. Perto do coração, mas longe dos olhos, das mãos, dos abraços e da sonoridade das risadas compartilhadas, que nunca é fiel pela tela dos aparelhos.

Mas eu já tenho um plano: quando isso tudo passar - porque vai passar, essa é uma realidade inexorável. Nada é permanente! - eu vou pegar meus pés e caminhar. E vou visitar meus amigos e rever os que estiverem ao meu alcance nesse instante. E assim que as nuvens escuras e os relâmpagos se acalmarem, vou abrir minhas asas ilusórias bem largo e vou voar de novo, em busca de alimento para a alma.

Até lá, é bem provável que eu acabe por mudar - de novo - os móveis da sala! Mas não importa, já que é tudo o que posso fazer por enquanto. E você, que chegou até aqui, qual é a sua natureza: ave ou árvore? Qualquer que seja, tenho certeza de que você vai gostar de ouvir essa canção e viajar um pouco comigo.

O Tempo não existe! Foi assim que o professor de Teoria da História iniciou a sua primeira aula, no primeiro semestre de faculdade de História. O Tempo é um elemento fixo, somos nós que nos movimentamos ao seu redor.

O Espaço-tempo da Terra, afirmou Einstein, pode ser entortado, ou mesmo retorcido pela rotação de outros planetas: o tempo é relativo. O físico italiano Carlo Rovelli explica que o tempo é mais rápido no alto de uma montanha, e mais lento no nível do mar. O Tempo!

Quem, assim como eu, convive com gatos e os observa talvez, assim como eu, fique se perguntando às vezes se eles percebem o tempo passar, e caso percebam, se isso faz alguma diferença. Meu palpite é de que nem percebem, nem se importam, visto o tempo que passam dormindo, muito satisfeitos com seu modo de vida.

O Tempo, um fluxo sem fim, um rio onde somos lançados no momento em que tomamos consciência de nossa existência e do qual não sabemos se um dia sairemos. Porque é provavelmente impossível imaginar a existência sem o tempo. São os ponteiros do relógio e os quadrinhos dos calendários que determinam o ritmo de nossas vidas. Há muito que nos distanciamos dos indícios da natureza para nos orientar. E mesmo na natureza, os ciclos se repetem, enquanto que em nossos calendários cada ciclo é acrescido de um ano, e um ano é diferente do outro, o que nos distancia mais e mais do passado. Estamos constantemente nos referindo a eventos passados no ano tal ou tal, comemorando centenários, biênios, e mesmo reservando garrafas de vinho desse ou daquele ano “especial”.

Mas, ultimamente, “o tempo tem andado estranho”. Para aqueles que estão em confinamento, o tempo está longo, ou está sendo desperdiçado. Tempo é dinheiro. O Tempo é uma dádiva. O tempo da velhice, que parece que se arrasta, mas que é precioso, é confrontado com o tempo da juventude, ávida por lhe dar continuidade, porque tem “todo o tempo do mundo”

Curiosamente, é o tempo atual que conta. É o tempo verticalizado, o agora. Ignoramos essa linha esticada que conecta humanos de todas as eras, passadas e futuras, e nos preocupamos essencialmente com o tempo atual. Ignoramos as dificuldades que nossos antepassados enfrentaram, similares ao que vivemos agora, mas com muito menos recurso. Mas ignoramos também como os que virão depois de nós enfrentarão esse tipo de problema.

Conseguimos conceituar a ideia de infinito, mas somos incapazes de imaginar o que seja algo que nunca acaba (se eu te disser que um tipo de loteria dos Estados Unidos, o Powerball, já premiou apenas três pessoas com 1.586 bilhão de dólares, você é capaz de imaginar o quanto isso faz em termos financeiros?), e isso parece criar um paradoxo: não conseguimos imaginar o fim do tempo, o antes e o depois, porque estão muito longe, e por isso mesmo nos apegamos ao “Tempo presente”.

24/24h fechados em nossos lares; e mesmo aqueles que tem que sair para o trabalho, 24/24 fechados num circuito de deslocamento limitado.

Alguns apegam-se desesperadamente a datas, acreditando num calendário mágico em que, num dia preciso, anunciado, tudo voltará a ser como antes, ansiosos pelo controle do tempo. Mas o fato é que os dias se repetem agora seguindo o ritmo da natureza, pois parece que os calendários perderam um pouco o sentido, já que ninguém sabe o que virá nas próximas semanas ou meses, o que dirá nos próximos dois anos. O que agora dá sentido ao passar das horas é o nascer e o pôr do sol, as folhas nas árvores, quais pássaros estão cantando e a temperatura lá fora. Aqueles que estão com um bebê recém-nascido em casa podem acompanhar, maravilhados, eu espero - a impressionante evolução que acontece de um dia para o outro.

Eu me pergunto se esse evento traumático causará algum tipo de ruptura ou se, uma vez anunciado o tratamento definitivo ou a vacina tão aguardada iremos retornar aos calendários. Talvez isso dependa de nossa capacidade de apreciar o Tempo de vida. E mesmo esse apreço depende do que o tempo faz de nós. Para aqueles que perderam entes queridos, que estão sós, que trabalham hoje para pagar o pão de ontem pode ser que o tempo que resta lhes seja indiferente ou penoso. Mas para aqueles que possuem tudo o que prezam - família e amigos por perto, mesa farta, saúde em dia - essa pode ser a chance de não mais se sentir arrastado pelo rio do tempo, mas deixar-se absorver por ele, fluir com o que o tempo oferece.


Talvez daí, quando nós e o tempo formos um, seu conceito não faça mais diferença e ele deixe de existir, o Tempo, e seremos então livres do medo de perdê-lo.