Todos os dias o ritual se repete. Ela acorda ao som suave, mas intrusivo, do despertador de seu celular. Antes mesmo de despertar - porque para acordar basta abrir os olhos, já pôr a máquina do cérebro para funcionar demora um pouquinho mais - ela desenha o código de desbloqueio e vai direto para as informações. Entre periódicos locais, nacionais e internacionais, páginas mais ou menos científicas e, porque não, um ou outro site de humor, porque a vida não precisa ser amarga, ela se equipa de toda informação que acredita ser necessária para tocar o dia. E finalmente esse dia pode começar. Mas um pensamento fica latente na mente da mulher: qual a utilidade de tanta informação? Paradoxalmente, é justamente o apanhado de informações que ela coletou ao longo de sua vida que traz fundamentos para uma provável resposta. Scientia potestas est, conhecimento é poder, disse Thomas Hobbes; mas também há o adágio - uma interpretação possível dos escritos de Aristóteles - “quanto mais sei, mais sinto que não sei”. Surge então, como muitas vezes, o desejo de ficar em paz, de exercer o direito à ignorância. Afinal, que diferença faz, para ela e para o mundo, o que ela sabe ou ignora? Ela leu em algum lugar que, durante a vida, uma pessoa mantém laços sociais estáveis com 150 outras pessoas ou, como disse quem conduziu o estudo, “pessoas com as quais você não se sentiria embaraçado em se juntar, sem necessitar convite, se as encontrasse casualmente num bar”. Isso significa que sua esfera de influência alcança 150 pessoas, e essa influência é limitada. Das 150, quantas entre elas dão importância ao que ela faz ou pensa? E todas essas informações que ela captou em sua leitura matinal vem com um peso grande. Por mais que se esforce em manter um equilíbrio entre boas e más notícias, grande parte do que lê causa um nó na garganta, mais ou menos oprimente conforme a época, mas onipresente. Ela se lembra de ter visto que “más notícias vendem mais” (será mesmo?!), e que talvez seja por isso que ela tenha essa impressão de estar sufocada, de viver em permanente estado de “bater ou correr”. Talvez fugir para uma ilha deserta! Ela procura então informação sobre se ainda existem ilhas desertas e descobre que sim! ainda existem ilhas desertas. Mas elas estão desertas por uma boa razão. De qualquer forma, se foram catalogadas é porque alguém já foi para lá e para lá pode voltar, trazendo consigo as notícias do mundo. Então por hora ela conclui que não é possível fugir. O dia termina e a mulher, com a mente exausta, toma uma decisão: no dia seguinte, nada de informação! Ela não abrirá links, não assitirá o jornal, não abrirá um livro. Nada. Niente. 24 horas da mais pura ignorância. Amanhece. O despertador toca. Ela pega o celular, mas lembra-se de sua decisão no dia anterior e logo o abandona. Ela se levanta e se prepara para o novo dia. Um dia sem informação, um dia sem se importar com o que acontece ou deixa de acontecer; Durante todo o dia, nenhuma informação chega até ela propositalmente. O dia vai terminando e chega a hora de fazer uma breve análise do resultado. Que decepção! Que dia bizarro. Nem a mulher conseguiu sentir-se menos tensa, nem o seu mundo, nem o restante ficou melhor ou pior. Ainda por cima, a ignorância, o não saber o que se passa ao seu redor a coloca na tal ilha deserta quando a idéia já tinha sido descartada. E a dúvida persiste: conhecer ou ignorar? Por mais que a mulher se esforce, um ciclo de 24 horas não é suficiente para nenhum ser humano apreender tudo o que se passa nesse intervalo. A ignorância é uma constante, e toda informação que nos chega é apenas uma gota num oceano. A mulher sente-se como o burro correndo para apanhar a cenoura, presa à sua frente por uma vara amarrada nele mesmo. Mas então a mulher tem um vislumbre: o burro atrás da cenoura não está parado. Ele tem um objetivo, um estímulo. Conhecer, saber, por pouco que seja, faz com que a mulher sinta-se estimulada, viva, partícipe da vida. Se a “ignorância é uma benção”, essa benção só funciona quando ainda não estamos aptos a saber. Uma vez adultos, já era, as informações chegarão de uma maneira ou de outra. Então a mulher volta às fontes e relê, mesmo com suas limitações, os Aristóteles, Hobbes, artigos de jornais, sites científicos, revistas e tudo o mais a seu alcance e decide que para os próximos dias, ela continuará sua busca pelo aprendizado, pela informação que, se por um lado é um fardo, por outro acaba por ser libertador. Quanto mais ela sabe, por pouco que seja, menos será prisioneira da ignorância e quem sabe, poderá tomar melhores decisões. E, se em seu círculo restrito de 150 relações humanas ela é apenas mais uma, ao menos ela se esforça para que a gota de oceano de sua contribuição seja límpida. E que se ela correrá eternamente atrás da cenoura, ao menos essa será “a” cenoura, uma pela qual vale a pena correr atrás.


Para escrever esse texto, a mulher recorreu a algumas cenouras, que você também pode amarrar à sua frente: Conhecimento é poder https://en.wikipedia.org/wiki/Scientia_potentia_est Quanto mais aprendo, menos sei: http://classics.mit.edu/Aristotle/metaphysics.mb.txt Com quantas pessoas nos relacionammos https://www.bbc.com/future/article/20191001-dunbars-number-why-we-can-only-maintain-150-relationships Más notícias vendem mais https://www.theguardian.com/media/greenslade/2007/sep/04/thegoodnewsaboutbadnewsi Ainda existem ilhas desertas https://www.mentalfloss.com/article/30692/10-uninhabited-islands-and-why-nobody-lives-them A ignorância é uma benção https://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Gray

Muitas pessoas me perguntam se Berenice sou eu. Eu tive bastante tempo para refletir sobre isso e a resposta mais simples é “não”; Berenice é uma personagem fictícia, assim como grande parte dos personagens criados exclusivamente para o livro. O que não me impede de ter com ela uma grande identificação, que encontra suas origens em diversas razões, como o amor pela aventura e a descoberta.

Mas ultimamente, um paralelo entre Berenice da Capadócia e eu, entre seu tempo e o meu tem se feito presente de forma marcante e inesperada: a descoberta de um vírus que até então estava ausente no bicho-homem.

Em minhas pesquisas sobre o período romano dos séculos 3 e 4, eu encontrei o interessantíssimo The fate of Rome: climate, disease and the end of an empire (2017 Princeton University Press), do historiador Kyle Harper. Nele, o pesquisador detalha como a força da natureza impôs sua vontade sobre Roma, essa que era, segundo o poeta Claudiano:

“Uma cidade maior que qualquer outra no mundo que o ar alcança, cuja amplitude nenhum olho pode medir, cuja beleza nenhuma imaginação pode conceber, cujo louvor nenhuma voz pode soar, que levanta uma cabeça de ouro entre as estrelas vizinhas e com suas sete colinas imita as sete regiões do céu, mãe das armas e da lei, que estende seu domínio por toda a terra e foi o berço mais antigo da justiça, esta é a cidade que, nascida de origens humildes, se estendeu para cada um dos pólos e de um pequeno lugar estendeu seu poder de modo até onde o sol toca.”

Esse discurso tão eloquente foi oferecido durante a visita do Imperador Honório a Roma, que não era mais a capital do Império, mas que guardava ainda esse orgulho de nobreza falida, que sempre acompanhou aqueles que um dia foram poderosos;

O público presente nas festividades estava vivendo um daqueles momentos em que todos acreditam que tudo está como deve ser e que nada pode mudar isso; um sentimento comum nos seres humanos, de que nada mude quando tudo vai bem. Animais selvagens, trazidos de todas as regiões dominadas pelo Império, foram colocados na arena, para oferecer ao público um massacre que, nas palavras de Kyle Harper, evidenciava que “os romanos haviam domado as forças da natureza selvagem”. Diante de tal espetáculo, provavelmente ninguém mais se lembrava das dificuldades do passado.

Mas a tal roda da fortuna não para de girar desde o início dos tempos e nós, viventes de hoje, privilegiados por ter um longo alcance do passado, sabemos que Roma também caiu.

O que torna o trecho seguinte incomodamente identificável:

Em escalas que os próprios romanos não poderiam ter entendido e mal imaginado — do microscópico ao global — a queda de seu império foi o triunfo da natureza sobre as ambições humanas. O destino de Roma foi representado por imperadores e bárbaros, senadores e generais, soldados e escravos. Mas foi igualmente decidido por bactérias e vírus, vulcões e ciclos solares. Somente nos últimos anos chegamos à posse das ferramentas científicas que nos permitem vislumbrar, de maneira fugaz, o grande drama da mudança ambiental em que os romanos eram atores inconscientes.

Sem detalhar demais todos esses fatores (porque eu sei que ficar em quarentena estudando história não está nos seus planos hahaha), um deles é para nós mais atual do que os outros: o assalto de novas doenças. Uma delas foi a que posteriormente cunhou-se como a praga de Cipriano. E é esse o evento que encurta a ponte entre o tempo de Berenice e o meu.

No ano de 249 d.C., pessoas começaram a adoecer, com sintomas terríveis (aparentemente bem piores do que os do COVID-19), e ninguém sabia de onde viera aquela nova doença. No seu auge, contava-se 5000 mortes por dia. Não há consenso entre historiadores sobre qual seria o vírus responsável pelo caos - entre os candidatos destacam-se a varíola, um tipo de ebola ou um vírus de gripe. Mas todos concordam que tratava-se de um vírus novo para o homem.

Não demorou para o pânico tomar conta da população. Ninguém correu atrás de papel higiênico, até porque isso não existia, mas eu consigo imaginar o medo do contato humano, as tentativas de isolamento confortável e o clima de “salve-se quem puder”. Isso porque relatos de documentos do período descrevem o pânico, o despreparo, a culpabilização (pagãos culpando o deus dos cristãos e vice-versa), a preocupação com a economia e a produtividade.

Berenice não viveu esse período, mas é sim um fruto dele. Foi talvez graças à essa nova Roma, que surgiu quando a crise passou, que ela pôde circular e chegar até onde foi.

A antiga ordem que punha no poder os filhos da aristocracia, agora via soldados tornados imperadores. Essa nova realidade mostrava que tudo era possível.

Foi talvez porque também deve ter ouvido relatos dos mais velhos, que contaram à ela como tudo era incerto e como todos tiveram que se readaptar durante a crise do novo vírus que ela desenvolveu em si a confiança de que se tudo é impermanente, então vale a pena tentar.

A recuperação econômica e demográfica de Roma foi lenta, mas ela rendeu ao império mais um século e meio de fôlego antes do seu final. Roma recuperou-se e novos padrões sociais surgiram. Cidades que antes eram poderosas, diminuíram e perderam seu prestígio para darem lugar a outros centros de importância.

Saber disso tudo me deixou mais tranquila, aliviou minha ansiedade.

Como eu dizia a uma amiga hoje de manhã, eu me pergunto sobre como será o futuro, mas de duas maneiras bem distintas: de um lado, eu tenho medo de ser contaminada pelo vírus, ou pior, que alguém que eu amo o seja. Mas esse é um medo que acompanha todo ser vivente todos os dias, então…

Por outro lado, eu estou muito otimista sobre os possíveis desdobramentos históricos dessa catástrofe, que — em tempo — só concerne nós, humanos. A prova disso é que a natureza à nossa volta continua impassível, em seu próprio ritmo. Pergunte para seu animal de estimação se ele está preocupado com COVID-19!

Estou convicta de que vamos mudar as coisas depois dessa crise. Esse vírus, sejam quais forem as razões de ele estar se espalhando da forma como está, nos obriga a questionar com mais seriedade sobre nosso modo de vida e qual futuro desejamos para nós. Agora é a nossa vez de escrever um novo capítulo, na história da humanidade.


 



Já faz aproximadamente dois mil e setecentos anos que a cultura humana navega na jornada do herói. Há vinte e sete séculos fomos apresentados à Ilíada e à Odisséia e os nomes de Aquiles, Odisseu, Telêmaco, Paris e Hector - entre tantos outros - entraram em nossos vocabulários (quem nunca descobriu o “calcanhar de Aquiles” de alguém ou de algo?). Quando o primeiro jovem recebeu o primeiro chamado místico, passamos a ser testemunhas de uma sequência infindável de heróis que deixaram seu lar, encontraram um mentor, descobriram possuir um poder excepcional, enfrentaram muitos perigos, caíram, levantaram, venceram seus inimigos para finalmente retornarem vitoriosos para seu povo, agora reconhecidos em todo o seu esplendor de herói (ufa!); desde então, esse ciclo tem se perpetuado em todas as artes. Foi em 1949 que Joseph Campbell cunhou a expressão “a jornada do Herói” ou monomito. Nos Tempos Modernos essa estrutura narrativa é tão onipresente como se tivesse sido inventada há pouco tempo. A característica dessa “jornada do Herói” que sempre me marcou muito é a do reconhecimento. Não basta ter um “coração valoroso”, grandes poderes e grandes responsabilidades: o herói inicia a caminhada subestimado, maltratado e solitário. É apenas quando ele salva justamente aqueles que o desprezaram que tudo muda e ele é então investido de todas as qualidades possíveis (isso até que no próximo episódio comece tudo de novo). Até mesmo o público infanto juvenil é consumidor dessa narrativa. Rainhas do gelo, pandas mestres em artes-marciais, uma jovem que se transveste de homem para enfrentar o exército huno, um menininho que acaba enfrentando o maior bruxo de todos os tempos... filmes, livros e HQs, entre outras manifestações da criação de histórias estão saturados da mesma mensagem: para ter valor e uma vida que vale a pena, é preciso ser herói. Quando eu comecei a delinear os primeiros contornos de Berenice, muitas possibilidades de narrativa se passaram em minha cabeça. Sendo eu mesma uma fã do tema jornada do herói e de literatura fantástica, eu cogitei algo grandioso para ela. Mas, quanto mais a história ia se moldando, mais esse modelo me incomodava e eu me perguntava “afinal qual o valor disso?”. Eu mesma quando termino a leitura de um livro desse tipo sinto um misto de empolgação e frustração. Enquanto lia O temor do sábio e O nome do vento (Patrick Rothfuss, pela Editora Arqueiro), a cada vez que o talento de Kvothe lhe permitia uma maneira genial de resolver seus problemas eu vibrava em “uaus” e “carambas”, para depois me dizer que nunca existiu nem existirá ninguém assim; e ali minha identificação vacilava. Isso era ainda mais marcante durante minha adolescência e juventude.

Afinal, só temos valor quando fazemos algo grandioso? Quando uma criança sofre bullying na escola, não é esperando dela que ela faça algo de extraordinário, que cause admiração nos seus algozes, que as coisas irão se resolver. Não dá pra prestar atenção nos esquecidos da sociedade só quando eles têm atos heróicos, salvando cãezinhos ou devolvendo carteiras cheias de dinheiro. Jornadas de herói são histórias muito bonitas de superação e coragem mas mesmo em tempos de superexposição social, de forma geral ninguém está interessado em nossas batalhas diárias e muitas vezes a gente só senta e chora as perdas, sem saber o que fazer. Por isso mesmo Berenice está fora do molde jornada do Herói. Ela não tem nada de extraordinário, nada nela é muito: beleza, inteligência, amabilidade, coragem, nenhum desses atributos são impressionantes nela. Se vivesse hoje, ela seria uma pessoa invisível na fila do supermercado. Ela não mudará nada nos rumos da história. Não se aplica a ela nem mesmo um efeito borboleta. Por todo o tempo em que viverá, ela só fará diferença para aqueles que conviveram com ela. Para uma população estimada entre 60 e 70 milhões de pessoas, o impacto da existência de Berenice é nulo. Agora você deve estar se perguntando “mas por que então escrever um livro sobre alguém tão sem graça”. A razão é muito simples: para mim o simples fato de estar vivo é extraordinário! Todos os dias, por toda a nossa vida somos confrontados a tantas situações que exigem de nós esforço e determinação. Eu tive a chance de conhecer muitas pessoas incógnitas mas extraordinárias, cujas vidas mereciam ser narradas em um livro, mas que nem percebem o quão fantásticas elas são. À sua maneira, Berenice também tem uma jornada que vale a pena ser contada. Sendo um romance histórico em que você será transportado até os tempos do Império romano do século III, há nela todos os elementos que dão brilho ao fio da vida. Drama, tensão, romance, amizade e muitas surpresas estão em Berenice da Capadócia: a jornada do não-heroi. Mas tudo isso de forma extraordinariamente comum. E é por isso mesmo ela está ao alcance de cada um. P.S.: ainda que na língua portuguesa exista a palavra heroína, o termo não-herói foi escolhido justamente para dar ênfase a tudo ao que o livro se opõe. Mas isso é tema para outra conversa!