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Volare oh, oh!


Já faz 51 dias que estamos confinados. Um tempo indecifrável, em que dias bons se sucedem a dias mais tensos e o humor fica ainda mais flutuante. Quando, como a Alice do livro, eu me dou bons conselhos e digo a mim mesma “viva um dia de cada vez” ou “isso vai passar” além do mantra “paciência” repetido vezes fim, eu até que consigo respirar fundo e esperar que cada dia aconteça como deve acontecer. Até porque eu tenho consciência de que minha situação está longe de ser das mais difíceis: eu tenho um teto sobre minha cabeça, os filhos sob o mesmo teto, um companheiro amoroso e uma mesa que não conhece a penúria (sem contar os dois gatos, que vira e mexe me confortam pela sua tranquilidade inabalável).

Mas há um fator que está pesando mais a cada dia, e quando eu procuro uma imagem para descrevê-lo, só o que me vem são “asas amarradas”. São 51 dias vendo a mesma paisagem e se há pouco foi possível ouvir novamente a sinfonia dos pássaros de primavera, acompanhar o despontar das folhas das árvores depois do longo inverno, de ver os botões de flores se abrirem e de sofrer com o pólen (ah, rinite, tu não me abandonas nem no confinamento!), nesses últimos dias não há mais muita novidade. As folhas já se tornaram conhecidas, o canto dos pássaros vai se acalmando e as flores começam a fenecer.

Eu moro num condomínio pequeno, mas que tem um espaço verde bem grande até - onde estão os pássaros, as árvores e as flores dos quais acabei de falar - e posso circular por ele livremente (sempre respeitando os famigerados gestos de proteção), mas já há uns bons dias isso não tem me bastado. Eu quero mais, eu tenho fome de mais! Tenho vontade de pegar meus pés e sair caminhando até que eles se cansem, na direção que eu decidir. Eu brinco que estou vivendo numa prisão sueca e descer para caminhar é o mesmo que banho de sol.

Veja, eu sei que estou reclamando injustamente. Eu nunca estive numa prisão. O mais próximo que cheguei de estar presa foi a uma cama de hospital (e isso marca a gente), mas eu repito: eu sei que tenho uma vida relativamente privilegiada. Claro que estou a anos-luz de fazer parte de alguma casta economicamente privilegiada. Minha probabilidade de possuir um patrimônio de mais seis dígitos é de 1/50.063.860, mas isso aumenta para 1/∞, já que eu não jogo na mega-sena, mas não deixo de pensar em quem tem menos do que eu, em quem vive em países sob ditaduras ou onde a pobreza é extrema. Não, eu sei que não tenho motivos para grandes queixas (o que não me impede de ter um olhar crítico sobre as políticas públicas, comportamento, sociedade, mas esse não é o tópico desse texto).

O que me acontece é um problema genético. Em minha família temos o gene do nomadismo. Desde pequena nos mudávamos com certa frequência de casa ou de cidade e na vida adulta eu continuei essa itinerância. Até o momento eu conto, desde meu nascimento, 21 mudanças e dentre elas, 7 cidades e 2 países diferentes.

Em casa de meus pais, quando não podíamos mudar de casa, mudávamos a disposição dos móveis e a casa nunca era igual de um ano para outro.

Tantas idas e vindas obviamente não trouxeram apenas alegrias. Era difícil mudar de escola e deixar todas as amizades para trás para tentar me reinserir em grupos que existiam antes de eu chegar.

Mas o gosto pelo novo, pela descoberta, por novas paisagens e novos rostos ficou em mim, implantado e absorvido como parte do meu ser.

Eu faço parte do grupo que, quando pensa o que faria se tivesse muito dinheiro, responde sem hesitar: viajaria!

Nos fins de semana não é raro que aqui em casa nos juntemos todos dentro do carro para fazer um passeio nas cidades vizinhas. E farofar na praia então? Essa está no top list! A cada novo lugar eu me encanto com a diversidade da cultura, das pessoas, da natureza e da história. E essas imagens vão se acumulando no meu repertório mental, me ajudando, nos momentos difíceis, a manter a esperança e a serenidade até que a tormenta passe.

Por todos os lugares por onde andei - e cada centavo economizado me permitiu ir para lugares bem longe, desde Portugal até o Japão - o que constatei, todas as vezes foi o mesmo: por baixo do verniz de nossas culturas específicas nós humanos, somos todos iguais. E entender isso me faz amar a vida e as pessoas ainda mais (confesso que algumas pessoas amo de longe, outras é verdade, não dá não, mas essas são bem poucas). Daí eu volto para os 51 dias. Há quase dois meses que não vejo “ao vivo e a cores” meus amigos, o restante da família que mora perto, outras paisagens, outras pessoas… e isso é o que está mais pesado.

Certo, todos concordamos em certo grau que o distanciamento social é o remédio amargo que vai ajudar o mundo a evitar uma catástrofe humanitária. Eu, que tenho convicções que me permitem encarar a morte com resignação, um processo natural, quando penso que podemos evitar mortes se à disposição da pessoa houver um leito de hospital e um respirador que lhe dê assistência até que seu organismo retome o controle, chego a uma conclusão óbvia: claro que posso abrir mão de meu conforto e claro que posso calar minha natureza inquieta para contribuir modestamente com o bem comum.

Só que… não está fácil. Talvez porque todo esse esforço para manter a vida esteja justamente nos afastando dela. Perto do coração, mas longe dos olhos, das mãos, dos abraços e da sonoridade das risadas compartilhadas, que nunca é fiel pela tela dos aparelhos.

Mas eu já tenho um plano: quando isso tudo passar - porque vai passar, essa é uma realidade inexorável. Nada é permanente! - eu vou pegar meus pés e caminhar. E vou visitar meus amigos e rever os que estiverem ao meu alcance nesse instante. E assim que as nuvens escuras e os relâmpagos se acalmarem, vou abrir minhas asas ilusórias bem largo e vou voar de novo, em busca de alimento para a alma.

Até lá, é bem provável que eu acabe por mudar - de novo - os móveis da sala! Mas não importa, já que é tudo o que posso fazer por enquanto. E você, que chegou até aqui, qual é a sua natureza: ave ou árvore? Qualquer que seja, tenho certeza de que você vai gostar de ouvir essa canção e viajar um pouco comigo.

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