top of page

O tempo não para

O Tempo não existe! Foi assim que o professor de Teoria da História iniciou a sua primeira aula, no primeiro semestre de faculdade de História. O Tempo é um elemento fixo, somos nós que nos movimentamos ao seu redor.

O Espaço-tempo da Terra, afirmou Einstein, pode ser entortado, ou mesmo retorcido pela rotação de outros planetas: o tempo é relativo. O físico italiano Carlo Rovelli explica que o tempo é mais rápido no alto de uma montanha, e mais lento no nível do mar. O Tempo!

Quem, assim como eu, convive com gatos e os observa talvez, assim como eu, fique se perguntando às vezes se eles percebem o tempo passar, e caso percebam, se isso faz alguma diferença. Meu palpite é de que nem percebem, nem se importam, visto o tempo que passam dormindo, muito satisfeitos com seu modo de vida.

O Tempo, um fluxo sem fim, um rio onde somos lançados no momento em que tomamos consciência de nossa existência e do qual não sabemos se um dia sairemos. Porque é provavelmente impossível imaginar a existência sem o tempo. São os ponteiros do relógio e os quadrinhos dos calendários que determinam o ritmo de nossas vidas. Há muito que nos distanciamos dos indícios da natureza para nos orientar. E mesmo na natureza, os ciclos se repetem, enquanto que em nossos calendários cada ciclo é acrescido de um ano, e um ano é diferente do outro, o que nos distancia mais e mais do passado. Estamos constantemente nos referindo a eventos passados no ano tal ou tal, comemorando centenários, biênios, e mesmo reservando garrafas de vinho desse ou daquele ano “especial”.

Mas, ultimamente, “o tempo tem andado estranho”. Para aqueles que estão em confinamento, o tempo está longo, ou está sendo desperdiçado. Tempo é dinheiro. O Tempo é uma dádiva. O tempo da velhice, que parece que se arrasta, mas que é precioso, é confrontado com o tempo da juventude, ávida por lhe dar continuidade, porque tem “todo o tempo do mundo”

Curiosamente, é o tempo atual que conta. É o tempo verticalizado, o agora. Ignoramos essa linha esticada que conecta humanos de todas as eras, passadas e futuras, e nos preocupamos essencialmente com o tempo atual. Ignoramos as dificuldades que nossos antepassados enfrentaram, similares ao que vivemos agora, mas com muito menos recurso. Mas ignoramos também como os que virão depois de nós enfrentarão esse tipo de problema.

Conseguimos conceituar a ideia de infinito, mas somos incapazes de imaginar o que seja algo que nunca acaba (se eu te disser que um tipo de loteria dos Estados Unidos, o Powerball, já premiou apenas três pessoas com 1.586 bilhão de dólares, você é capaz de imaginar o quanto isso faz em termos financeiros?), e isso parece criar um paradoxo: não conseguimos imaginar o fim do tempo, o antes e o depois, porque estão muito longe, e por isso mesmo nos apegamos ao “Tempo presente”.

24/24h fechados em nossos lares; e mesmo aqueles que tem que sair para o trabalho, 24/24 fechados num circuito de deslocamento limitado.

Alguns apegam-se desesperadamente a datas, acreditando num calendário mágico em que, num dia preciso, anunciado, tudo voltará a ser como antes, ansiosos pelo controle do tempo. Mas o fato é que os dias se repetem agora seguindo o ritmo da natureza, pois parece que os calendários perderam um pouco o sentido, já que ninguém sabe o que virá nas próximas semanas ou meses, o que dirá nos próximos dois anos. O que agora dá sentido ao passar das horas é o nascer e o pôr do sol, as folhas nas árvores, quais pássaros estão cantando e a temperatura lá fora. Aqueles que estão com um bebê recém-nascido em casa podem acompanhar, maravilhados, eu espero - a impressionante evolução que acontece de um dia para o outro.

Eu me pergunto se esse evento traumático causará algum tipo de ruptura ou se, uma vez anunciado o tratamento definitivo ou a vacina tão aguardada iremos retornar aos calendários. Talvez isso dependa de nossa capacidade de apreciar o Tempo de vida. E mesmo esse apreço depende do que o tempo faz de nós. Para aqueles que perderam entes queridos, que estão sós, que trabalham hoje para pagar o pão de ontem pode ser que o tempo que resta lhes seja indiferente ou penoso. Mas para aqueles que possuem tudo o que prezam - família e amigos por perto, mesa farta, saúde em dia - essa pode ser a chance de não mais se sentir arrastado pelo rio do tempo, mas deixar-se absorver por ele, fluir com o que o tempo oferece.


Talvez daí, quando nós e o tempo formos um, seu conceito não faça mais diferença e ele deixe de existir, o Tempo, e seremos então livres do medo de perdê-lo.

Commenti


bottom of page