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De quem é o livro?


“Quando sou eu que te olho, você me evita.

Quando você vem em busca de meu calor,

Sou eu quem não tem tempo, nessa vida aflita.

Você chama por mim, um apelo de amor ecoa em sua voz.

Eu chamo por você, mas encontro ouvidos indiferentes. Ai de nós!

Mas há um momento em que você e eu sintonizamos,

Em que colocamos todas as nossas diferenças de lado

E nos colocamos lado a lado, mansos, satisfeitos, contenta-mente.

Até quando será assim? Oxalá esse amor perdure além dos limites,

E que tenhamos um ao outro assim mesmo, nesse amor fluido,leve e inconsistente.”


Ao ler essas linhas, o que vem em sua mente: a história de um casal que não se entende? Um casal que se entende em alguns momentos apenas?

Ou o que você vê é o reflexo de uma relação que você já viveu ou está vivendo?

Você ‘ouve’ uma mulher falando? Um homem?

Essa voz é jovem ou velha?

Seriam as palavras de um pai ou mãe falando para seu filho ainda pequenino?

Afinal, o que diz e a quem diz esse poema?


Pois bem, eu lhe digo o que eu tinha em mente quando o escrevi e aí você responde “ah, bom?”. Escrevi esse poema para meus dois gatos, indiferentemente. Porque ter um gato é viver um constante “quando eu te quero você não me quer”. Mas quando mestre e gato sintonizam, passam-se momentos do mais perfeito contentamento, que nos convence de que essa convivência vale a pena.

Mas há grandes chance de que você tenha lido algo bem diferente do que eu tinha em mente quando escrevi esse poema.

Da mesma maneira um livro, uma história contada na forma de letras sobre o papel (ou sobre a tela de nossas parafernálias eletrônicas), também será lido com os olhos do leitor.

Ainda que o J.R.R. Tolkien (1892-1973), tenha dito o contrário, ele nada pôde fazer para evitar as comparações de O senhor dos Anéis com a Segunda Guerra Mundial, nem as mais elaboradas teorias sobre o “real” significado de suas obras.

O nome de Niccolò Macchiavelli(1469-1527), foi cunhado como “(ação ou pessoa)em que predomina a astúcia, a má-fé e o oportunismo”*, a partir de sua obra mais famosa, O príncipe. Mas nem o fato de Macchiavelli ter servido como secretário de guerra na República de Florença, e de sua obra ser considerada como grande influenciadora da onda de transformação de reinos em repúblicas a partir do século XVI impedem muitos de considerar O Príncipe como uma obra de exaltação da monarquia.

Não acredito nem mesmo ser necessário mencionar aqui a interpretação dos textos canônicos das três maiores religiões da atualidade, a Torah, a Bíblia e o Al-Quran.


O livro é lido com os olhos do leitor…

Quando eu estava tateando sobre os caminhos que o livro Berenice da Capadócia iria tomar, foi meu querido editor quem me disse que “uma vez publicado, a Berenice vai deixar de ser sua, para se tornar a Berenice do leitor”.

Nesse momento, eu senti ciúmes. Como assim, não vai ser mais a minha Berenice? Que Berenice será essa, pois?

Então o livro foi lançado e as pessoas começaram a me falar do que leram. E eu fiquei encantada com as berenices que me foram descritas, pois eram personagens inspiradoras. Mas cada uma à sua maneira.


As pessoas não ficaram tão emocionadas com passagens que me tocaram mais. Nem se impressionaram com aquilo que me impressionou, mas com passagens que, no momento de escrever, eu não achei tão relevantes.

Isso porque o livro se conecta a vivência individual. Ele vai trazer à tona variadas lembranças de infância, diferentes visões sobre amizade e versões próprias de romance e amor.


E por mais que eu tenha em mente uma certa paisagem da Capadócia e do Império Romano do século IV, por mais que as ruas das cidades por onde Berenice passou se desvelem para mim numa certa paleta de cores, quem lê o livro vai ver, cheirar e sentir essas mesmas ruas de forma talvez bem diferente.

Eu me pergunto até se alguém se identificará com as nuances nebulosas de Llewellyn (ainda mais com o que virá na no Volume 2), ou com outro personagem da história.


Muito se discute sobre a influência do leitor sobre quem escreve, e como ela pode ser perniciosa (porque você acha que George R. R. Martin ainda não terminou "As crônicas de gelo e fogo", aka Guerra dos tronos?). Eu mesma admito que se ficar pensando muito no que agrada o leitor, acabo ficando de mãos completamente atadas, porque eu simplesmente não sei o que agrada. Isso porque não há fórmula para escrever a história perfeita. Cada leitor é único e querer saber o que se passa em sua mente seria de uma arrogância sem par.


E isso é valioso para mim. Esse universo de possibilidades de leitura e interpretação acabam por me dar uma liberdade sem limites. Meu único compromisso é com a própria história. Eu posso descrever todas as emoções humanas que eu for capaz, porque sei que elas vão ecoar em muitos espíritos de forma livre, sem as amarras da minha própria intenção.

Vendo assim, eu volto na frase do editor. Aqui está para você, Berenice da Capadócia, uma jornada do não-herói que é sua, entrego em suas mãos. E não duvido de que sob seu olhar, o livro possa acabar sendo muito melhor do que o que eu mesma escrevi.

Boa leitura!



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